Passo a passo, Antonio Miguel Vieira Monteiro tenta convencer o Congresso de que o INPE merece mais recursos — e os brasileiros de que o programa espacial olha mais para a Terra do que para as estrelas
Autor: Gabriel Duarte/portal spriomais3 de março de 2026
Da graduação em Engenharia Elétrica em Vitória (ES) ao doutorado em Brighton (Inglaterra), ou às milhares de horas como aluno, pesquisador e professor no INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em São José dos Campos (SP), já se foram quatro décadas de Antônio Miguel Vieira Monteiro dedicadas à ciência.
Miguel sabe que o grande fardo de todo pesquisador é não conseguir emergir com seus estudos. Ficar preso no próprio mar de teorias, mergulhar em um oceano de cientistas e, dificilmente, conseguir compartilhar esses conhecimentos úteis com um coletivo maior. Demonstrar à nação o quanto vale o investimento em ciência, e que anos de pesquisa são melhor aplicados nas cidades do que guardados no Lattes — plataforma que documenta a vida acadêmica dos cientistas brasileiros.
Por isso, é uma missão agridoce que ele vive atualmente, como diretor do INPE: convencer que o reconhecimento do instituto na comunidade científica brasileira e internacional merece verba suficiente para, no mínimo, dar continuidade ao trabalho. E o Congresso Nacional não costuma conceder uma fatia muito generosa desse bolo. “Eu reconheço, tem muitos setores e pouco dinheiro, mas é possível melhorar um pouquinho”, opina o diretor, que assumiu oficialmente o instituto em dezembro do ano passado, após quase dez meses como interino.
Com orçamento previsto de R$ 112,5 milhões em 2026, o programa espacial brasileiro representa cerca de 0,0009% do PIB nacional. Considerando o PIB de 2025, estimado em R$ 12,7 trilhões, a participação é inferior a um milésimo de ponto percentual da economia brasileira.
Esse contraste ajuda a explicar, na visão de Miguel, por que a ciência precisa se tornar um capital simbólico para alcançar as esferas mais elevadas do poder. “Ter um programa espacial que more nos corações dos brasileiros é fundamental, senão a gente não toca o Congresso.”
O INPE precisa ser pop
Tornar a ciência produzida pelo INPE uma bandeira nacional passa necessariamente pela comunicação externa do instituto: como ele chega até o povo, e como o povo o enxerga. Um trabalho como o feito pelo SUS (Sistema Único de Saúde), tão criticado no passado, mas hoje um sistema repaginado que se tornou ícone pop, ganhou simpatia, estampa camisetas e é defendido com unhas e dentes pela população offline e online — este ambiente cada vez mais decisivo no termômetro da popularização.
O INPE compartilha suas atividades com cerca de 65 mil seguidores no Instagram, vitrine com algoritmo potente o suficiente para ampliar em milhões esse número ou reduzir o alcance de forma drástica, sem necessariamente considerar a urgência de informar bem as pessoas.
No fim de janeiro, o perfil do instituto publicou um mapa didático com a previsão do clima em todo o país para os três meses seguintes. A previsão meteorológica e dos eventos extremos, produzida a partir do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), o mais avançado da América Latina, recebeu pouco mais de 750 curtidas.
O desempenho do post de 13 de fevereiro que divulgava a redução no desmatamento na Amazônia e Cerrado foi ainda pior: menos de 200 curtidas. A degradação florestal na Amazônia caiu 93%, passando de 44.555 km² para 2.923 km², mas não sensibilizou o algoritmo e menos ainda alcançou a população brasileira.
O quão importante seria para o país que esses posts tivessem um engajamento maior? Miguel enxerga com clareza que há muito o que evoluir na comunicação do instituto, mas, ao mesmo tempo, qual o tamanho do milagre operado pelos assessores e marketeiros dentro do INPE? “Nosso setor de comunicação tem que bater o escanteio e correr para cabecear”, expõe o diretor, otimista de que também há passos de formiguinha que podem ser dados fora das redes sociais.
É visitando que se aprende
Há poucos dias, o INPE abriu a temporada de visitas à sua sede em São José dos Campos, para que grupos escolares, estudantes universitários ou qualquer cidadão interessado consigam entender o que se passa dentro das portas do instituto.
Nessas visitas, agendadas de terça a quinta-feira, os visitantes podem conhecer, e sem pagar um centavo sequer, o laboratório onde satélites são montados e testados antes de saírem de órbita e o centro que controla esses equipamentos no espaço. Com sorte, se a agenda sorrir para você, também é possível assistir a palestras de pesquisadores renomados sobre mudanças climáticas, sensoriamento remoto e astronomia.

Uma vez ao ano, o INPE realiza um dia de portas abertas com atividades científicas e visitas guiadas pelos prédios do instituto. São datas em que é possível explorar sem agendamento prévio o telescópio, o observatório astronômico, a biblioteca e o museu de satélites. Mas, querendo, não é preciso esperar uma oportunidade dessas.
“Qualquer um, de qualquer lugar, sempre pode visitar”, enfatiza o diretor. Basta falar com o setor de comunicação e eventos do INPE para combinar a visita. O contato pode ser feito pelo email imprensa@inpe.br ou por telefone: (12) 3208-7269.
Mas entender o INPE não é apenas saber que a Amazônia é amplamente monitorada e em quais salas ficam gravados esses registros; que a Jaci, o novo supercomputador, inaugurado em dezembro de 2025, faz cálculos precisos em tempo recorde; ou como um satélite é lançado ao espaço e consegue enviar milhares de informações em frações de segundo às equipes na Terra.
Na verdade, a compreensão mais profunda do papel do instituto na sociedade envolve observar os dados na rotina e alcançar o pensamento crítico a partir do que eles apresentam. E é tarefa do INPE tomar o protagonismo e sublinhar: é o instituto quem alerta sobre o temporal antes que o primeiro pingo caia, que aponta deslizamentos daqui a dois dias, a tempo da vizinhança sair de casa para se proteger, ou que explica que a saúde da Floresta Amazônica, mesmo a milhares de quilômetros, nos importa e nos afeta.
“A gente precisa se aproximar da comunidade e fazer com que ela entenda que o papel do INPE é cada vez mais relevante”, afirma Miguel, afastando a impressão de que o INPE só olha para cima. “A gente não fica lá apenas pensando nas estrelas. Não é uma ciência desconectada da realidade brasileira”, ressalta.
Quebrando o tabu
A cada dois meses, conta o diretor, um grupo de 20 a 60 lideranças religiosas de diferentes matrizes faz uma visita técnica ao INPE com o objetivo de tornar a ciência um ponto de intersecção entre todas elas. As comitivas são compostas por padres, rabinos, pastores, pajés, diáconos, de todo o país, reunidos pela Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil (IRI-Brasil).

A grande missão do programa, fundado em 2017 pela ONU, é combater as mudanças climáticas e o desmatamento pela fé. Fazer das comunidades indígenas e das florestas tropicais prioridades de um senso espiritual compartilhado entre crenças.
“Depois de um ano, o Carlos Vicente [líder do projeto] me mandou um relatório. Como é impressionante [ver] que desconstruir a ignorância transforma a pessoa”, relata Miguel sobre o impacto das visitas. “E quando transforma uma pessoa construtora de opinião, aquela pessoa encontra mais 40, mais 100. É muito importante para nós”, afirma. O sucesso da experiência com líderes religiosos estimulou o INPE a procurar nichos estratégicos. Segundo o diretor, o público-alvo agora é político.
“A gente quer trazer comitês suprapartidários de deputados e senadores”, explica Miguel, depositando uma dose generosa de fé sobre a mudança de status do INPE em Brasília, o que poderia significar mais dinheiro em caixa. “Eles precisam conhecer para, na hora de debater orçamento, entender que, independentemente de quem governa, tem uma instituição para responder por problemas que são iminentes”.
Impacto climático
Os problemas aos quais o diretor se refere são vários: desmatamento, queimadas, secas, estiagens, chuvas intensas, cenários extremos e catástrofes, os quais o poder público, quando confrontado, tem o péssimo hábito de classificar como inevitáveis. Um vício autoinduzido em dizer que são situações que fogem do controle, quando não são.
Vale a população saber, por exemplo, que o INPE mantém, em colaboração com o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), a plataforma Adapta Brasil, que consolida dados sobre o clima e apresenta o risco que as mudanças climáticas oferecem sobre áreas essenciais, como saúde, segurança alimentar e segurança hídrica. Os dados estão disponíveis para todos os 5.570 municípios brasileiros.
A ferramenta existe desde 2020 e foi elaborada especialmente para que gestores públicos e privados identifiquem vulnerabilidades e tomem ações práticas para driblar ou minimizar os impactos socioeconômicos desses eventos. Equipes de pesquisadores e cientistas, tanto do MCTI quanto do próprio INPE, oferecem cursos de capacitação na plataforma aos estados, municípios, empresários e outros tomadores de decisão.
