Governo Bolsonaro parece viver em universo paralelo
Governo Bolsonaro parece viver em universo paralelo

Governo Bolsonaro parece viver em universo paralelo

Em live apresentada nesta quinta-feira, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, com o propósito de apresentar estruturas para a viabilização financeira do setor aeroespacial, o ministro da pasta, Marcos Pontes, fala como se o atual governo vivesse num outro universo, que desconhece as dificuldades do setor aeroespacial. Sua primeira afirmação sobre o Programa Espacial Brasileiro é possuirmos condições de nos tornamos protagonistas nessa área.

Após sucessivos cortes de verbas, cancelamento de projetos (como o Veículo Lançador de Satélites – VLS), incerteza na continuidade de projetos (como os satélites Amazonia e CBERS), como seria possível?

Pontes afirma que, ao longo de décadas, o Programa Espacial Brasileiro nunca decolou. Errado ele não está. Porém, mais errado foi afirmar que, no governo Bolsonaro, o Programa Espacial passou a ser prioridade, e ainda, comemorar o lançamento de quatro satélites, como se fossem frutos de investimentos do atual governo.

Uma possível fonte de recursos está parada: o Fundo Nacional de Desenvolvimento em Ciência e Tecnologia. Esse tema sequer foi citado pelo ministro.

Mais surpreendente que as falas do ministro, foi a apresentação do diretor do INPE, Clézio de Nardin. Sem receber as verbas do INPE para 2021, perdendo a previsão do tempo pelo CPTEC, desligando o supercomputador Tupã (já obsoleto e sem previsão de substituição) e correndo o risco de fechar o principal, e maior, laboratório do Instituto, o Laboratório de Integração e Testes – LIT, Nardin se preocupou mais em agradecer ao governo por seu “grande trabalho para proteção das unidades de pesquisa e também do CNPq”.

Também parabenizou, com muito entusiasmo, o presidente da República por criar um grupo para viabilizar recursos para o setor aeroespacial, mesmo que ainda não tenha havido qualquer progresso.

Nardin centrou sua apresentação no que considera serem as demandas da sociedade para o setor espacial: possíveis projetos e as oportunidades para atuais e futuras startups. Esqueceu-se, porém, de apresentar as demandas do instituto que comanda, a falta de recursos financeiros e, especialmente, a falta de pessoal.

O SindCT considera que o negacionismo científico chegou ao Programa Espacial Brasileiro com a exoneração Dr. Ricardo Galvão, em 2019. Durante o período de intervenção, redefiniu-se o Inpe em vinte dias, sem nenhuma consulta à comunidade científica, no estilo “ordem dada é ordem cumprida” ou, o que dá no mesmo: “um manda, o outro obedece”. Com a escolha de um novo diretor por um comitê de busca, voltou-se à “normalidade”? Sim, a uma nova normalidade, onde o Diretor do Inpe aceita um regimento outorgado pela intervenção e assume com todos os seus cargos de confiança já nomeados. É hora de reconhecermos que o Programa Espacial Brasileiro vem sendo desmontado e que os frutos que se tem colhido são resultado de décadas de trabalho, não foram plantados no atual governo.

Não, nem tudo vai bem no melhor dos mundos; ao menos para aqueles que não se limitam a plantar seu próprio jardim.

Autor

  • Fernanda Soares é jornalista profissional, formada há 25 anos. É responsável pelas publicações Rapidinha, Jornal do SindCT e pelo canal WebTVSindCT. Em 2012 recebeu o prêmio Beth Lobo de Direitos Humanos das Mulheres, oferecido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, por sua cobertura da desocupação do Pinheirinho. É autora do livro “A solução Brasileira - História do Desenvolvimento do Motor a álcool no Brasil”, publicado e distribuído pelo SindCT, e de livros paradidáticos infantis, da editora Todolivro.