Satélites e lixo espacial
Satélites e lixo espacial

Satélites e lixo espacial

Quem olha para o céu, quer ver estrelas, certo? Errado! Nos dias de hoje, quem olha para o céu, quer ver satélites! Isso devido ao grande alvoroço causado pela frota de satélites Starlink que pôde ser vista, a olho nu, de diversas partes do Brasil.

Em 10 de maio, várias pessoas relataram ter visto OVINIs, quando na verdade eram 50 satélites do programa Starlink enfileirados, que ficaram no céu por cerca de 20 minutos. A frota faz parte de uma enorme constelação de satélites que serão utilizados para proporcionar internet banda larga mais barata.

Na última semana, o portal UOL publicou uma matéria sobre essa frota de satélites do programa Starlink, da Space X. A matéria aborda a preocupação dos astrônomos com a quantidade de satélites na órbita terrestre, que pode chegar a 12 mil só deste programa, e as possíveis consequências desse novo tipo de poluição. A matéria completa pode ser vista aqui.

Além da SpaceX, outras empresas estão planejando o lançamento de uma grande quantidade de satélites, como a OneWeb, de 650 a 1500 satélites, e a Amazon, 3200 satélites; ou seja, nos próximos 30 meses, a quantidade de satélites na órbita da Terra será bem superior ao dobro da atual. 

Além da grande quantidade de objetos que trabalharão para que a vida no planeta seja mais confortável, há também uma enorme quantidade de lixo espacial. Estima-se que hoje haja cerca de 20 mil objetos com mais de 10 centímetros e milhões de partículas de 1 milímetro (e menores) na órbita terrestre.

Todo esse conjunto de objetos orbitando nosso planeta traz consequências para os astrônomos, pois a luz refletida por eles atrapalha a observação de objetos distantes no espaço.

Dr. João Braga, astrônomo e pesquisador do INPE, que atualmente está desenvolvendo um CubeSat para detectar explosões cósmicas explica que a comunidade científica já está buscando soluções para esse problema. “A principal poluição é a poluição luminosa no céu noturno que atrapalha observações astronômicas feitas a partir do solo. O Elon Musk¹ já está conversando com a comunidade astronômica internacional para resolver esse problema. A principal providência parece que vai ser pintar os satélites com uma tinta preta fosca ultra-absorvedora para reduzir, ao máximo, a reflexão da luz solar pelos satélites.”

Além da poluição luminosa, outra grande preocupação é com as possíveis colisões entre esses objetos, espalhando destroços a uma velocidade de 7,5 km por segundo, correndo o risco de atingir astronautas e estações espaciais.

Silvio Fazolli, servidor aposentado do DCTA e astrônomo amador, trabalhou como voluntário no Observatório Astronômico do DCTA e conhece bem o assunto. Ele conta que, de 1991 a 2013, foram registradas nove colisões, ou seja, 0,4 colisão por ano e, se mantidos estes números, após o lançamento de todos os satélites previstos, poderá ocorrer ao menos uma colisão por ano.

“Ainda em um cenário mais favorável, em 1978, o cientista da NASA, Donald J. Kessler, propôs uma teoria que supõe que o volume de detritos espaciais na órbita baixa da Terra seria tão alto que objetos como satélites começariam a se chocar com o lixo, produzindo o efeito dominó: gerando ainda mais lixo. Tanto a ISO, International Standart Organization, quanto a NASA, para citar apenas duas organizações, discutem este tema, em comissões especializadas, há mais de 30 anos, mas, devido à complexidade, e principalmente à falta de interesse das indústrias que exploram o espaço, não existe nenhum plano de controle deste lixo.”

Porém, assim como na terra há quem recolhe seu lixo quando sai para passear, também no espaço há quem se preocupe com a sujeira que deixa para trás.

O curioso, em toda essa história de lixo espacial, é que temos um exemplo fantástico desde o final da década de 60; são as missões Apollo da NASA. Estas missões foram realizadas deixando um mínimo de lixo, o estágio superior do foguete, pois, na concepção delas, fazia parte o retorno seguro à atmosfera terrestre. É óbvio que o satélite deve ficar em órbita, porém a inclusão gradativa de obrigações de “dispositivos” prevendo o retorno seguro para a atmosfera terrestre, do satélite, e de partes do foguete, teria permitido o aprendizado e recolhimento de dados de tal maneira que a realidade atual seria diferente e a teoria de Kessler seria assunto do passado ou do futuro”, conta Fazolli.

1 – Elon Reeve Musk é o fundador, CEO e CTO da SpaceX; CEO da Tesla Motors; vice-presidente da OpenAI; fundador e CEO da Neuralink; e co-fundador e presidente da SolarCity. 

Autor

  • Fernanda Soares é jornalista profissional, formada há 25 anos. É responsável pelas publicações Rapidinha, Jornal do SindCT e pelo canal WebTVSindCT. Em 2012 recebeu o prêmio Beth Lobo de Direitos Humanos das Mulheres, oferecido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, por sua cobertura da desocupação do Pinheirinho. É autora do livro “A solução Brasileira - História do Desenvolvimento do Motor a álcool no Brasil”, publicado e distribuído pelo SindCT, e de livros paradidáticos infantis, da editora Todolivro.