O Cemaden e a tragédia em Petrópolis
O Cemaden e a tragédia em Petrópolis

O Cemaden e a tragédia em Petrópolis

O Centro de Monitoramento de Desastres Naturais – Cemaden, como o próprio nome já define, tem por missão: “realizar o monitoramento das ameaças naturais em áreas de risco em municípios brasileiros suscetíveis à ocorrência de desastres naturais, além de realizar pesquisas e inovações tecnológicas que possam contribuir para a melhoria de seu sistema de alerta antecipado, com o objetivo final de reduzir o número de vítimas fatais e prejuízos materiais em todo o país”.

Um desastre é consequência de ameaça da natureza aliada à ameaça social, ou seja, vulnerabilidade e exposição da população. A combinação dessas duas ameaças leva ao chamado desastre natural.

O instituto foi criado em 2011, após a tragédia que deixou 918 mortos na região serrana do Rio de Janeiro, incluindo Petrópolis, e atualmente monitora 1038, dos 5570 municípios do país.

O trabalho do Cemaden combina ciências da natureza com ciências sociais para analisar o impacto para a sociedade, utilizando dados fornecidos pelo NOA, CPTEC e pelo Instituto Nacional de Meteorologia.

Ao contrário do que muitos pensam, o Cemaden não encaminha alertas para a população. Sua função é comunicar os riscos eminentes ao Centro de Gerenciamento de Riscos e Desastres – Cenad. O Cenad, por sua vez, encaminha a notificação para a Defesa Civil da área de risco. Cemaden e Cenad possuem ligação direta 24 horas por dia.

Até a primeira quinzena de fevereiro, já foram enviados ao Cenad 985 alertas de risco geo-hidrológico.

No dia 21 de fevereiro de 2021, por exemplo, o Cemaden encaminhou ao Cenad um alerta, de nível moderado, para o município de Simões Filho, na Bahia, informando a possibilidade de deslizamentos de encostas e a quantidade de pessoas e moradias que poderão ser atingidas nos próximos dias.

Para entender o papel do Cemaden na recente tragédia que acometeu, mais uma vez, no município de Petrópolis, o Jornal do SindCT conversou com um dos especialistas que atuam na “sala de situação”, ou seja, no monitoramento direto e contínuo dos municípios e com o diretor do Cemaden, Dr. Oswaldo Luiz Leal de Moraes.

Três dias antes do evento ocorrido em Petrópolis, o Cemaden já estava atento ao movimento atípico e monitorava a região.

O Cemaden encaminhou, antecipadamente, em 14/02, ao Cenad, um alerta de risco moderado, baseado nas previsões de precipitação estimadas nos modelos meteorológicos, somadas à análise dos acumulados preexistentes que indicam a umidade do solo.

Na segunda-feira que antecedeu ao desastre, o Cemaden enviou um alerta indicando que havia possibilidade de desastre na região serrana do Rio de Janeiro, noroeste de Minas Gerais e sul do Espírito Santo. Nesse momento era impossível fazer a previsão exata do fenômeno que aconteceu, dar a localização, data exata e intensidade. Isso é um limite da ciência meteorológica, mesmo com modelo de alta resolução e supercomputador, o evento ocorrido não teria previsão com antecedência adequada, mas, no máximo, com uma hora de antecedência”, explicou Dr. Oswaldo de Moraes.

No dia 15 de fevereiro, o bairro São Sebastião, em Petrópolis, foi atingido por uma chuva intensa, medida em 260 mm em 4 horas, ou seja, em apenas quatro horas, choveu 40% a mais que o normal climatológico para todo o mês de fevereiro.

Uma explicação simples para este fenômeno meteorológico ocorrido em Petrópolis na tarde do dia 15, é em poucas palavras: “foi a combinação da chegada de uma frente fria na região, aliada a fatores locais de instabilidade termodinâmica e de orografia (relevo), todos estes elementos combinados numa escala local, fator que dificulta a previsão antecipada usando somente modelos meteorológicos“, contou o servidor da sala de situação que preferiu não ser identificado.

Com a chuva intensa, com grande volume de água, vieram também as inundações, enxurradas e deslizamentos de terra.

Situação semelhante também ocorreu em 1988 quando uma chuva intensa provocou inundações e tragédias no município. Nessa ocasião foram registrados 134 mm de chuva em 24 horas.

O evento que atingiu Petrópolis em 2022 foi similar ao ocorrido em dezembro de 2020 na Bahia.

Considerado um evento de curtíssimo prazo, um fenômeno com ciclo de vida de 4h, mesmo com o envio de alertas ao Cenad e com os alarmes sonoros dos municípios acionados, quando existe essa ferramenta, esse tipo de tragédia dificilmente é evitada, pois não existe tempo hábil para a Defesa Civil ou outros órgãos evacuarem a região afetada a tempo.

Por outro lado, as ações antecipadas de prevenção e educação da população, sim, fazem toda diferença.

A percepção do risco é mínima entre a população. Precisamos aprofundar o trabalho do conhecimento do risco para a população. Precisamos ter políticas no Brasil de educação da população para ações em casos de desastres naturais”, informa o Dr. Oswaldo de Moraes.

As ações antecipadas de educação e preparação da população ante este tipo de fenômeno meteorológico, sim, teriam feito toda diferença. O que fazer? Para onde ir? Como agir em cada caso? Algo que ajudaria a impedir um desastre dessa magnitude seriam obras de infraestrutura, retirada da população de áreas de risco e ações de resposta muito bem planejadas e executadas, a médio e longo prazo.

Eu sempre me pergunto onde está nossa maior capacidade de ajudar com este grande problema do país, que é estrutural e está muito pior depois da pandemia, da crise econômica, com mais pessoas vulneráveis, em condições de vida muito piores. Fico pensando que nós temos um grande diferencial, que foi a oportunidade de estudarmos e nos qualificarmos academicamente, produzir conhecimento, produzir ferramentas; e penso, muitas vezes que, talvez, pudéssemos contribuir mais com as respostas para o problema focando na produção de conhecimento e disseminação de ferramentas que podem auxiliar as defesas civis a melhor se preparar para os eventos e também fomentar a questão de prevenção, que no meu entendimento, vem muito antes da previsão do evento, mas algo mais consistente e de longo prazo, começar e educação no jardim de infância. Talvez o nosso conhecimento, nossas capacidades, possam suprir, ao menos em parte, as carências que as defesas civis têm”, completou o servidor da sala de situação.

Infelizmente, não é humanamente possível, com as ferramentas disponíveis atualmente, antecipar um evento de curtíssima duração e de tamanha intensidade. A imprevisibilidade de eventos como esse vai continuar, ou mesmo aumentar em frequência e intensidade, e isso reforça o pensamento do papel dos servidores públicos do Cemaden nesse grande sistema para gestão do risco de desastres.

A ciência mostra que existe um aumento no número de eventos extremos em função das mudanças climáticas. Isso significa que a possibilidade de acontecerem fenômenos dessa natureza é maior que em 2021. É uma ameaça que está crescendo. A possibilidade de ocorrerem eventos como esse é cada vez maior”, finaliza Dr. Oswaldo de Moraes.

Autor

  • Fernanda Soares é jornalista profissional, formada há 25 anos. É responsável pelas publicações Rapidinha, Jornal do SindCT e pelo canal WebTVSindCT. Em 2012 recebeu o prêmio Beth Lobo de Direitos Humanos das Mulheres, oferecido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, por sua cobertura da desocupação do Pinheirinho. É autora do livro “A solução Brasileira - História do Desenvolvimento do Motor a álcool no Brasil”, publicado e distribuído pelo SindCT, e de livros paradidáticos infantis, da editora Todolivro.